04 novembro, 2011

Crianças, Abandono.



 Carlos Augusto de Araujo Jorge – 31/10/2011


Tão perto e te negam, não te enxergam.

Só sombras, só cheiro...

Fedidas, perdidas, fudidas,

Em pedaços ou inteiras.

 

Crianças, abandono...

Que negam a regra e se fazem presa,

Sendo ninguém, são de quem?

Existências em segredo...

 
Buscam em vida, suas vidas.

E destemidas, fazem história...

Tentando sentir-se alguém

Nas esquinas e nos becos,

Sem festejos e sem glória,

Constroem resistências também.


Não têm nome, pouco importa,

Pois são filhas da rua.

Se vestidas em trapos,

Ou com a sua pele nua,

Resta-lhe o lixo, os farrapos, migalhas e desacatos...

 
A cidade, seus senhores,

Empresários e doutores,

Não te enxergam na essência,

E se lhes cobram coerência,

Esparramam-se em pendores.


Busca tê-las bem ao longe,

Pois é assim que inexistem.

“Se os olhos não as veem, o coração não fica triste”.

“Operações” são montadas,

Tal qual manadas em tropel,

Saem em bandos, espreitando,

Em uma caçada cruel.

 

A cada uma que se recolhe

Como resíduos sem valia,

São ações que se repetem,

Vida a fora, noite e dia.


Não lhes é dado o direito de saber o que é que é?

Onde estão e pra onde vão?

O que importa o que se quer,

É concluir a “operação”.

 

A reposta, a de sempre,

Prontamente ali está,

Empafiosos, onipotentes,

“Queremos a todos resguardar”.

E com pompas de quem decide,

E pose de quem anseia.

Anunciam-se exitosos,

Donos da vida alheia.

 
Comemoram, criam índices,

Busca a todos enganar,

Porque apesar do “circo” armado,

A miséria ali está.
 

Não importa em que trajes,

Ou sem eles venham a estar,

Se fadados ao ultraje,

Seu destino é suportar.

 
Desde que as vistas d’outros

Não te venham alcançar,

Tudo volta ao seu estado,

A vida segue. O que é que há?


Emudecidas pelas regras,

Que desconhecem e afinal

Imobilizadas, agonizam,

Obediência total!
 

Não importa ninguém sabe,

Imagina ou mesmo vê.

Estão longe, escondidas,

No anonimato a sofrer.


Impossível à tarefa

De tentar se reconstituir,

Sem ser livre, sem ver nada,

Sem ousar em refletir.