Crianças, Abandono.
Carlos Augusto de Araujo Jorge – 31/10/2011
Tão perto e te negam, não te enxergam.
Só sombras, só cheiro...
Fedidas, perdidas, fudidas,
Em pedaços ou inteiras.
Crianças, abandono...
Que negam a regra e se fazem presa,
Sendo ninguém, são de quem?
Existências em segredo...
Buscam em vida, suas vidas.
E destemidas, fazem história...
Tentando sentir-se alguém
Nas esquinas e nos becos,
Sem festejos e sem glória,
Constroem resistências também.
Não têm nome, pouco importa,
Pois são filhas da rua.
Se vestidas em trapos,
Ou com a sua pele nua,
Resta-lhe o lixo, os farrapos, migalhas e desacatos...
A cidade, seus senhores,
Empresários e doutores,
Não te enxergam na essência,
E se lhes cobram coerência,
Esparramam-se em pendores.
Busca tê-las bem ao longe,
Pois é assim que inexistem.
“Se os olhos não as veem, o coração não fica triste”.
“Operações” são montadas,
Tal qual manadas em tropel,
Saem em bandos, espreitando,
Em uma caçada cruel.
A cada uma que se recolhe
Como resíduos sem valia,
São ações que se repetem,
Vida a fora, noite e dia.
Não lhes é dado o direito de saber o que é que é?
Onde estão e pra onde vão?
O que importa o que se quer,
É concluir a “operação”.
A reposta, a de sempre,
Prontamente ali está,
Empafiosos, onipotentes,
“Queremos a todos resguardar”.
E com pompas de quem decide,
E pose de quem anseia.
Anunciam-se exitosos,
Donos da vida alheia.
Comemoram, criam índices,
Busca a todos enganar,
Porque apesar do “circo” armado,
A miséria ali está.
Não importa em que trajes,
Ou sem eles venham a estar,
Se fadados ao ultraje,
Seu destino é suportar.
Desde que as vistas d’outros
Não te venham alcançar,
Tudo volta ao seu estado,
A vida segue. O que é que há?
Emudecidas pelas regras,
Que desconhecem e afinal
Imobilizadas, agonizam,
Obediência total!
Não importa ninguém sabe,
Imagina ou mesmo vê.
Estão longe, escondidas,
No anonimato a sofrer.
Impossível à tarefa
De tentar se reconstituir,
Sem ser livre, sem ver nada,
Sem ousar em refletir.


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